05/08/11

"Nus" (Carlos Cardoso)



Nus

            ...por tudo isto, as pessoas que registam devem merecer pelo menos o nosso apreço. São elas que projectam, para lá das fronteiras etárias e sociais, a trajectória que hoje traçamos no éter. Deixá-las registar, bem ou mal, até mesmo os mal - intencionados, que acabam por não ser mais do que o registo de si próprios.
            Esconder o quê? Andamos nus. E quanto mais nos desnudarmos, mais as gerações vindouras saberão, em silêncio, respeitar a intimidade com que nos demos, entre nós e à Natureza.
            Nada se esconde por muito tempo. Nada. Os reis de outrora, tão convencidos que estavam da sua altivez, dos seus adornos de poder, da sua distância em relação aos humildes, são hoje examinados por historiadores, por jornalistas, por «homens comuns», tal como os ratos são examinados num laboratório.
            O pudor, as razões de estado, coisas tão importantes num dado momento, depressa passam à periferia da importância à medida que actos de outros, nossos filhos, trazem ao tempo novas definições do que é actual. É preciso muita coragem, e a lucidez de que andamos nus, para que uma nova geração adquira e sintetize, nas suas experiências, as experiências da velha geração. Para que isso aconteça é preciso darmos-lhes tudo, as nossas virtudes e medos, as nossas hesitações, o nosso heroismo calculado ou de loucura, as nossas lágrimas, o nosso sexo inteiro com o nosso tempo. E dizer-lhes: «Aqui nos têm, nus. Tudo vos demos. Todos os nossos segredos são agora vosso património público. Não ficou nada por vos contar. Tudo aquilo que nos encheu de riqueza a vida vos transmitimos e agora partimos vazios e leves para o túmulo, enfim libertos de qualquer sentimento medíocre de propriedade. Tomem tudo isso e façam de tudo isso prancha do vosso voo para maiores e mais duradoiras felicidades».
            Ah! que geração fantástica seria essa, nascida já como professores, como generais, sem terem que descobrir do nada as coisas ridículas que o nosso sentimento de propriedade lhes esconde. Como ela partiria, grávida de dignidade, rasgando novos horizontes espirituais e inventando um mundo ainda hoje inimaginavel de vida social.
            Quando penso nestas coisas, por vezes tenho que parar porque, de tão belas, se transformam em dor. Especialmente porque aqui neste país há homens e mulheres de rara beleza, gente que de muito sofrer e muito lutar, muito amou. Gente que iniciou a inversão da História, gente que passou a fazer História sabendo isso, sentido isso, em vez de ser apenas produto dela. Sei que esse salto se transmite nas mais pequenas coisas, desde o encontro casual ao comício de massas. Mas falta o resto.
            Nós, os que viemos depois, seremos, ou não, as vossas flechas e vocês serão, ou não, o arco que nos projectou.
            Contem-nos tudo. Tudo. Contem-nos até as injustiças que praticaram que ninguém vos condenará por isso porque a justiça que semearam é muito maior. E nós contaremos aos outros que virão aquilo que vocês foram e aquilo em que vocês se trasformaram ao enterrarem-se inteiros nos nossos corações e cérebros. Não. Vocês não têm o direito de ficar enterrados no anonimato das vossas próprias memórias.

Machava
Outubro 82

Carlos Cardoso (1985) Directo ao Assunto. Maputo: Cadernos Tempo.

04/08/11

É preciso saber rir (Carlos Cardoso)



É preciso saber rir.

A boca deve estar levemente suspensa
como no terceiro minuto do amor.
entreabertos e agitados
os lábios deixam espreitar os dentes atentos.

Depois,
rir deve ser o prenúncio da tempestade.

Deixa trepar o isófago o estampido do estômago.
O coração estremece,
os pulmões hirtam-se como águia de bico em flecha
e os braços arrancam do abdómen
o primeiro estrondo da tempestade.

Finalmente,
a cabeça separa-se do corpo
e irrompe por aí
desfeita em gargalhada.

Carlos Cardoso (1985) Directo ao Assunto. Maputo: Cadernos Tempo.

03/08/11

Comunidade de Leitores



 
Texto adaptado de um email há pouco enviado a uma lista de possíveis interessados na iniciativa

No encontro do dia 19, do passado mês de Julho, no Centro Cultural Franco-moçambicano a ideia de uma Comunidade de Leitores ganhou corpo. Os que se fizeram presentes (12 pessoas) contribuíram com as suas ideias, e combinou-se que quinzenalmente, a partir de Agosto, seriam realizadas sessões de discussão de obras literárias.

Um ponto importante é que não se trata de nenhuma organização (instituição) a promover a iniciativa, mas sim um grupo de pessoas que tem em comum o gosto pela leitura e a vontade de partilhar as suas leituras e trocar pontos de vista sobre determinados textos. Assim, não há financiamentos nem imposições de quem quer que seja. Pelo que, os membros da comunidade é que ditam as regras (horários, periodicidade, obras a discutir, formato das sessões, etc.).

Outro ponto importante é que, embora uma parte dos membros tenha formação em estudos literários, as sessões de leitura e discussão de textos não são para fazer crítica literária. Pelo contrário, sem limitar a profundidade da análise, deve-se procurar promover o diálogo e troca de ideias entre os participantes, de forma simples, para que todos possam contribuir com aquilo que a obra em análise significar para si.

Naquele primeiro encontro, decidiu-se começar pelo único livro que estava em cima da mesa, Sangue Negro, da Noémia de Sousa, tendo-se acordado ainda que as sessões seriam, alternadamente, dedicadas à poesia e à prosa, sendo que numa primeira fase a abordagem será circunscrita à literatura moçambicana.

A primeira sessão de leitura foi marcada para 02 de Agosto, ontem, mas não ocorreu pelo facto de vários membros da comunidade estarem a participar do Curso Livre de Filosofia e Arte, orientado por António Cabrita, no Instituto Camões em Maputo, desde 26 de Agosto, cujo primeiro módulo terá a duração de 5 semanas, com aulas semanais às terças-feiras a partir das 18h.

Assim, a primeira sessão deverá ocorrer hoje, das 18h-20h, no Centro de Documentação e Informação da Universidade Politécnica (graças ao acolhimento da ideia, pelo Dr. Ginja, em resposta ao pedido endereçado pelo Camilo da Silva).

Não tendo sido estabelecido o programa (trimestral/semestral) das sessões, no encontro inicial, este deverá ser fixado na sessão de hoje. A minha sugestão é que comecemos por um programa semestral abordando obras "fundamentais" da literatura moçambicana. Neste período, veremos qual será a dinâmica do grupo, os participantes desenvolverão alguma "cumplicidade", e nos prepararemos para outras actividades que foram sugeridas no encontro inaugural (ex: oficinas de poesia/escrita criativa) ou abordagens mais específicas, dedicadas seja a um autor apenas, "novas vozes" da literatura moçambicana, uma determinada temática/corrente literária, ou à literatura de outro país, etc.

Certamente que definir uma lista de obras "fundamentais" da literatura moçambicana é uma empresa dífcil e para gente com muito saber e tempo, pelo que deveremos estabelecer a "nossa" lista de obras fundamentais, o que também não deverá ser fácil. Assim, para simplificar, sugiro que cada membro/colaborador da comunidade avance 5 títulos e, se houver repetição, as obras com mais indicações entram para a lista. Caso haja necessidade, completa-se a lista com base no consenso, após discussão.

Um programa semestral teria 12 títulos, sendo Sangue Negro o primeiro, assim faltam 11. As minhas cinco indicações são:

Os Meus Versos (Rui de Noronha, Organização de Fátima Mendonça)
Memória Consentida (Rui Knopfli)
As Mãos dos Pretos - Antologia do Conto Moçambicano (Organização de Nelson Saúte e Fátima Medonça)
A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas (Organização de Nelson Saúte e António Sopa)
Terra Sonâmbula (Mia Couto)

Os resultados/consensos da partilha de leituras em cada sessão serão sintentizados e publicados no blog http://mocambiquepoesiaeprosa.blogspot.com/, de modo que a discussão possa continuar, com a contribuição de todos os interessados que, por qualquer motivo, não possam participar directamente das sessões.

A coordenação do grupo está a cargo de Arsénio Macaliche Matavele e Léa Maria, sendo a principal referência para este "projecto" a experiência da Comunidade de Leitores do Instituto Camões, em 2009, sob a orientação da Professora Fátima Mendonça.

Arsénio Macaliche Matavele

29/07/11

Do amor pelas pedras (Rui Nogar)



Do amor pelas pedras

se fores capaz
de amar uma pedra

se conseguires amar um pedra
dessas a que chamam calhaus
vulgaríssimas na sua textura
inconsequentes nas intenções
e que rolam no leito dos rios
desgastando-se até ao absurdo

uma pedra que julgamos inútil
sem outra beleza que não seja
a que só tu lhe podes emprestar

 se fores capaz de amar essa pedra
ama-a
acarinha o seu silêncio
responde ao seu mutismo
iletrado irreflexo
ama essa pedra
mesmo que te chamem louco
e que se riam na cara que hasteaste
no mastro da tua irreverência

e se for preciso
se os não loucos
forem longe longe demais
nas suas vaias
seus arremedos insultuosos
atira-lhes então a pedra
atira-lhes então a pedra
com toda a força do teu amor
com todo o poder transfigurador
das tuas mais íntimas convicções
ah com a violência que te possui
nos momentos em que és capaz
de amar uma simples pedra
que a tua sensibilidade vitalizou

atira-lhes essa pedra
atinge-os em cheio
e esmaga
esmaga as conveniências
que a burguesia libidinou
para que os outros
um dia saibam
que o absurdo apenas mora
onde jamais será pssível
florescer um amor qualquer

e tu
tu amarás essa vulgar pedra
quer eles queiram quer não
como se ama
apaixonadamente
a independência da nossa pátria
a liberdade de qualquer povo

c.c. machava, 1967

Rui Nogar (1982), Silêncio Escancarado. Maputo: INLD - Instituto Nacional do Livro e do Disco.

26/07/11

Se me quiseres conhecer (Noémia de Sousa)



Se me quiseres conhecer,

Se me quiseres conhecer,
estuda com os olhos bem de ver
 esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.

Ah, essa sou eu:
órbitas vazias de possuir a vida,
boca ragada em feridas de angústia,
mãos enormes, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura...
Torturada e magnífica,

altiva e mística
África da cabeça aos pés,
-ah, essa sou eu:

se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de África,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos dos muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melancolia se evolando
duma canção nativa, noite dentro...

e nada mais me perguntes,
se é que me queres conhecer...
Que não sou mais que um búzio de carne,
onde a revolta de África congelou
seu grito inchado de esperança.


25/12/1949


Noémia de Sousa (2001) Sangue Negro. Maputo: AEMO - Associação dos Escritores Moçambicanos.

15/07/11

Lírica para uma ave (Rui Knopfli )


Lírica para uma ave

Num céu de chumbos e baionetas
caladas,
sobre uma floresta de sono e
demência,
tonta, esvoaça perdida
uma ave sangrenta.
Na turva e opressa manhã
se anuncia a cólera do tempo.

Na hora
da aurora,
gemem ventos,
fluem surdos rios.

Cerra os olhos,
cala na garganta
a voz,
acorda audível
o pensamento:

No escuro cerne da floresta
com sorrisos dependurados à entrada,
degola-se uma ave.
Por enquanto mais nada, senão
o torvo tinir dos talheres
no banquete da morte impossível.

Rui Knopfli (1959) O País dos Outros.

12/07/10

Civilização (José Craveirinha)



Civilização

Antigamente
(antes de Jesus Cristo)

os homens erguiam estádios e templos
e morriam na arena como cães.

Agora...
também já constroem Cadillacs.

José Craveirinha (1974) Karingana Wa Karingana.